por Zélia Chamusca
No século XIX o mito era
tudo o que se opunha à realidade, ou seja, fundamentava-se numa história
fictícia passada, “in illo tempore”, em tempos remotos.
Por exemplo: a história da
criação do ser humano, isto é, a criação de Adão e Eva, contida no livro primeiro
da Bíblia, o Génesis; e, o mais antigo tratado da mitologia grega, a Teogonia que
significa criação dos deuses, de Hesíodo, grande poeta contemporâneo de Homero,
século VIII a.C., em que narra a criação do mundo a partir dos primeiros deuses,
são mitos fictícios, acontecimentos fabulosos, não reais.
Do mesmo modo para o
cristianismo primitivo tudo o que não tinha fundamento lógico, racional, era considerado falso:
era uma fábula. Porém, o estudo dos etnólogos levou-os a refletir sobre esta
herança semântica resultante da polémica cristã e do mundo pagão, passando o
valor do mito a ser considerado a própria fundamentação da vida social e
cultural de um povo. Ora, um facto que se nos depara desde o inicio, para estas sociedades
primitivas, é que o mito era suposto ser uma verdade absoluta enquanto narração de um
acontecimento sagrado.
E ainda hoje, repito, o mito é suposto
ser considerado, nessas mesmas sociedades, como a verdade absoluta, porque
conta uma história sagrada, ou seja, uma revelação transcendente que ocorreu na
aurora do tempo. É uma narrativa lendária que corresponde à tradição cultural
de um povo que explica a origem do mundo e de toda a natureza, não pelo
pensamento, pela razão, ou pela inteligência, mas, explica-a através do
apelo ao sobrenatural e, ao misterioso e, tratando-se de uma história sagrada é
considerada real, verdadeira.
Ora, sendo uma história real
e sagrada o mito torna-se exemplar e passível de repetição porque serve de
modelo e justificação ao comportamento humano seguindo ações exemplares de um
deus ou herói passadas em tempos remotos.
Dá-se assim uma inversão de
valores, seguido pelas sociedades tradicionais e nas nossas ditas sociedades
modernas; o que era considerado fictício passou a ser verdade absoluta quando
se refere a uma história sagrada.
Aplicando este estudo ao
caso vertente, o mito do Natal, o nascimento de Jesus, enviado de Deus, que veio
ao mundo para nos ensinar a amar, que bom seria que adotando um comportamento
mítico seguindo Jesus, tornássemos este mito do Natal num verdadeiro mito.
A realidade, porém, não é
esta quando há corpos jazendo no chão, pela crueldade humana; gente a viver na
rua ao frio, à chuva, ao vento; trabalhadores explorados vivendo em condições sem dignidade e, no mundo,
crianças a morrer de fome, enquanto 1% da população detém 80% da riqueza
mundial.(1)
Só quando existir no mundo
uma cultura universal em que todos comunguem dos mesmos valores e usufruam, da mesma riqueza
dos bens da terra criados por Deus, isto é, só quando o mundo for de todos os
humanos, assim, poderá haver Natal.
Este Natal que os cristãos
festejam é mero mito, real fantasia, em que alguns vivem inebriados por breves
dias.
É a festa do Natal!
É Natal de gastos supérfluos
para alguns enquanto a maioria, mesmo nas sociedades ditas desenvolvidas, vivem
em condições mínimas de bem-estar, pela falta de solidariedade, de falta de
amor, de fraternidade, onde paira o egoísmo, a corrupção, o mal, a exploração do
ser humano!
Tudo isto faz com que surjam
movimentos isolados de crueldade e revolta que ninguém quer compreender que é
porque não há Natal!
Só haverá Natal quando
ouvirmos a palavra de Jesus:
Eu vos dou um mandamento novo: amai-vos uns aos
outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros (Jo
13,34).
Zélia Chamusca