Por Zélia Chamusca
A
ética fundamenta-se em princípios estruturantes numa relação de alteridade assente
no reconhecimento do outro, no direito à diferença, no conceito de dignidade da
pessoa humana e no bem comum. Por outras palavras, é uma partilha de
alteridade, através da consciência social espontânea na procura coletiva do bem a favor da sociedade.
O
termo alteridade tem origem no termo latino “alter” que significa o outro, sendo o conceito de alteridade a qualidade ou o estado do que é diferente.
Este
conceito, alteridade, parte do
pressuposto de que o homem enquanto ser social interage e interdepende
do outro.
Ora,
numa sociedade em que se perdem os princípios, atrás referidos, estruturantes numa relação de alteridade, perde-se, concomitantemente, a ética.
Uma
sociedade sem ética é uma sociedade acéfala e desorganizada, desconectada de
reflexão sobre o sentido da vida em sociedade.
Na
nossa sociedade, dita democrática, no século XXI, comportamo-nos numa postura
ética de alteridade fundamentada na dignidade da pessoa humana, na
subjetividade e diversidade do outro?
Não.
Nem na nossa sociedade nem em lugar algum do planeta, nas sociedades ditas
desenvolvidas, o homem se comporta numa postura ética face à alteridade. E, é esta a realidade, o contrário é mera fantasia poética.
O
homem, o ser humano é igual em todo o lado, independentemente da sua cultura.
Em todas as sociedades existem os conceitos de bem e de mal, de alteridade, do
direito à diferença do outro e a consciência da necessidade de com ele interagir
e interdepender. O homem, ser humano só o é em termos de relação com o outro e
nunca isolado, contrariamente seria uma abstração.
Ora,
se assim é, porque é que, principalmente, nas sociedades modernas não existem
princípios de reconhecimento do outro, relações de alteridade que visam o bem
comum e o direito à diferença?
Hoje,
dificilmente alguém se coloca no lugar do outro, numa relação baseada no
diálogo e valorização das diferenças existentes.
Os
relacionamentos não se estabelecem em termos de alteridade, no sentido do dever
ser, na procura do bem comum em favor do outro, da coletividade; mas antes, tendem
a libertar-se da obrigação moral de solidariedade, levando cada um a pensar,
apenas, em si próprio.
A
alteridade deu lugar ao individualismo que, tendendo a debruçar-se,
exclusivamente, sobre si próprio, afastando-se de toda a solidariedade social
condenou a ética ao niilismo, ao nada.
Neste
niilismo impera a destruição de todos os princípios que regem as relações
humanas numa sociedade justa e fraterna.
Como
se vive ou sobrevive numa sociedade sem ética?
Vive-se
numa alienação total de desorganização onde paira a destruição pela corrupção a
que chamam crise.
Sim.
É crise mas não de dinheiro porque ele existe, mal distribuído, apenas nos
bolsos de alguns.
É,
sim, uma crise de valores no mundo e na sociedade em que vivemos.
Crise
significa rotura, desequilíbrio que tende ao equilíbrio, é mudança. É sempre
nestas situações de crise que surgem as grandes transformações.
Resta,
pois, a esperança de que com os fundamentos éticos duma sociedade organizada e
democrática, visando um relacionamento numa prática de alteridade em favor dos
mais desfavorecidos, surja uma nova forma de convivência social baseada
nos verdadeiros princípios éticos de respeito pelo outro, pela diferença e pela dignidade da pessoa humana.
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Zélia
Chamusca