O TEATRO
E A POESIA
(Dia
Mundial do Teatro)
Por
Zélia Chamusca
O Dia Mundial do Teatro, 27
de Março, foi criado em 1961 pelo Instituto Internacional do Teatro (ITI), data
da inauguração do Teatro das Nações, em Paris.
O teatro surgiu nos
primórdios da humanidade pela necessidade, do homem, em comunicar.
As primeiras representações
cénicas de que há conhecimento, surgiram no Egito e consistiam em rituais formalizados e baseados em mitos e
eram interpretados por homens.
Estas representações
surgiram com uma finalidade religiosa, didática e de transmissão de
ensinamentos morais e de conduta humana.
Hoje, vai mais além, podendo
despertar sentimentos, desempenhar um
papel pedagógico, lúdico, social, político e cultural, etc.
O teatro é uma
manifestação artística integrada nas sete artes, tal como a literatura:
1ª Arte - Música (som);
2ª Arte - Dança/Coreografia
(movimento);
3ª Arte - Pintura (cor);
4ª Arte -
Escultura/Arquitectura (volume);
5ª
Arte - Teatro (representação);
6ª
Arte - Literatura (palavra);
7ª Arte - Cinema (integra os
elementos das artes anteriores mais a 8ª e no cinema de animação a 9ª).
Esta escala é a mais
consensual não obstante ter sido ampliada.
A escala foi ampliada:
Cinema;
Rádio, televisão e
fotografia ou agrupados em "media arts";
Banda desenhada;
Arte digital ou RPG ou jogos
de vídeo ou modelismo ferroviário (e por extensão modelismo de uma forma
geral);
Arte gráfica.
A
representação cénica esteve desde os primórdios da civilização ligada à
literatura, muito especialmente, no género poesia.
Por
exemplo, os documentos de dramaturgia eram escritos em versos de escrita rígida
obedecendo a métrica.
As
grandes epopeias como a Ilíada e a Odisseia são formadas por histórias que eram
declamadas na praça pública pelos chamados “aedos”, poetas gregos da época
primitiva, que cantavam ou recitavam com acompanhamento da lira. Homero era um “aedo”.
O teatro e a poesia caminharam juntos ao longo da história
tendo gerado grandes obras encenadas e recitadas.
Por
exemplo:
A peça
Romeu e Julieta, de William Shakespeare,
foi escrita baseada num poema, de Artur Brooke, publicado em 1562, tendo
chegado ao palco sob a forma dramática e recebido outras personagens e tramas.
Os Lusíadas de Luís de Camões,
ganharam versões teatrais em diversas épocas da história, tanto em Portugal
como no Brasil.
Ainda
hoje, estas manifestações culturais sob a forma de expressão surgem de mãos
dadas em espetáculos que têm como base textos literários.
E
porquê este género literário, a poesia?
Porque
é que, por exemplo, as canções e as representações
teatrais (ainda hoje algumas) são em forma poética?
É,
sobretudo, porque a forma poética tem sonoridade e facilita a memorização, mas,
também porque esta género literário
utiliza toda a liberdade de expressão que lhe é permitida quer manipulando as
palavras através de incorreção ou utilizando termos de gíria popular quer
utilizando figuras de estilo, como recurso literário, para que o autor,(da obra
escrita) ou o ator (na representação) possa expressar livremente a sua
criatividade e possa transmitir, ao leitor ou ao público, através de uma
forma perfeita, tudo o que pretende dizer.
Falando
de teatro, não nos podemos esquecer de falar
em Gil Vicente.
Gil Vicente foi
o introdutor, o pai, do teatro português e considerado o primeiro dramaturgo português.
A
produção teatral de Gil Vicente (que viveu entre 1465 – 1537), compreende a Poesia Palaciana dos finais do século XV e inícios do Séc. XVI, é representativa da vida palaciana e
reproduz o conceito do mundo dos nobres e dos fidalgos que a produziam, os poetas palacianos.
A poesia palaciana encontra-se reunida no Cancioneiro Geral de Garcia de
Resende num conjunto de quase mil poemas de 286 autores.
Gil
Vicente, além de poeta foi músico, ator, encenador e ourives, a quem é
atribuída a autoria da célebre Custódia de Belém.
A
sua obra situa-se, repito, entre os finais do Séc. XV e inícios do Séc. XVI,
isto é, entre os finais da Idade Média e o inicio do Renascimento.
Ou
seja, a sua obra é marcada pelo pensamento teocêntrico (Deus, céu, inferno) e o
humanista (antropocêntrico e racionalista).
A
poesia trovadoresca da Idade Média, cantada na praça pública, pelos trovadores,
ao som da lira, dá lugar à poesia
palaciana renascentista que passa a ser recitada em reuniões, e festas palacianas, sendo
cultivada pela aristocracia. É aqui, que se situa a obra de Gil Vicente.
Contrariamente
à poesia trovadoresca da Idade Média ou mesmo à poesia épica da cultura
clássica, como já referi (Homero na Ilíada e na Odisseia), que era cantada ou
dançada na praça pública ao som da lira; a poesia palaciana passa a ser
declamada sem música, nos saraus palacianos.
A
obra poética de Gil Vicente é constituída por 44 peças teatrais, sendo 17 em
português, 11 em castelhano e 16 nas duas línguas.
As peças mais conhecidas são: Farsa de Inês Pereira, Farsa do Velho da Horta, Auto da Alma, Auto da
Lusitânia, Trilogia das Barcas (Auto da Barca da Glória, Auto da Barca do
Inferno e Auto da Barca do Purgatório), Monólogo do Vaqueiro, Floresta de Enganos,
Quem Tem Farelos? entre outras.
As suas obras compreendem, fundamentalmente, autos e farsas. Os autos tratam
com seriedade de assuntos ligados a fé; as farsas, peças satíricas, criticam os
costumes de seu tempo.
Gil Vicente nunca foi censurado, nem hostilizado, não obstante
a característica do seu teatro ser a crítica à hipocrisia da sociedade da
época, não escapando ninguém: nem a nobreza, nem o clero, nem o povo.
O teatro em Gil Vicente foi reconhecido e aceite entre os
nobres (embora também criticados), talvez porque a sua critica, com uma
finalidade moralizante, era apresentada nas farsas, pondo em prática o lema
latino conhecido desde a Antiguidade: “ridendo castigat mores” (rindo,
corrigem-se os costumes).
A sua atividade cénica era desenvolvida, como já referi,
nos palácios, tendo a maior parte das suas obras sido apresentadas na Corte de
D. Manuel I.
Esta
é a razão de falarmos de poesia neste célebre Dia Mundial do Teatro.
A
POESIA E O TEATRO CAMINHAM DE MÃOS DADAS
Zélia Chamusca
Hoje
a poesia está no teatro
Poesia
que tanto idolatro,
ela
sempre em mim esteve.
nem
só no palco eles estão.
logo
ao nascer se prenderam,
e,
por nós, também amados.
A caminhar
de mãos dadas,
com
roupagens diferentes,
dos
ausentes e presentes.
Estão
sempre indissociáveis
desde
o enredo à personagem,
são
p’ra nós indispensáveis
em
dialéticas constantes,
vivem,
o teatro e a poesia
c’o
amor de eternos amantes.
Quer
seja um auto ou drama,
quer
seja farsa ou tragédia,
Mesmo
o ato não divertido,
Mas,
se o sonho é fantasia;
Fonte de imagem - Google
Sala Garrett no Teatro D. Maria II (Lisboa)