By Zélia
Chamusca
O
amor faz-se?
Não.
O amor é uma busca incessante ao encontro de si mesmo.
É a
necessidade de nos complementarmos por não o encontrarmos dentro de nós. É uma
carência da alma. Contudo, tendemos sempre a encontra-lo na criação, no objecto
que encontramos ou que nós próprios produzimos, sendo que, nunca suprimos a carência na
concretização do objeto do amor, mas sim na procura do mesmo objeto.
Exemplo
disto é o que acontece com o artífice, o escultor, o pintor, o artesão, o escritor,
com todo e qualquer produtor de arte, em relação ao que cria.
Daí
que o artista nunca esteja satisfeito com a obra criada e procurar sempre mais,
criar mais.
Outro
exemplo, o poeta quando fala de amor, é sempre de um amor insatisfeito, duma
insatisfação afetiva, duma carência espiritual, duma necessidade não satisfeita.
O
amor é a busca para nos ultrapassarmos a nós próprios, nas nossas carências,
encontrando o objecto de amor na nossa própria e progressiva realização.
A ideia
de o encontrar no outro, em algo que supra as nossas carências afectivas e
espirituais, ou a busca da complementaridade, resulta, vulgarmente, em fracasso,
porque se vê no outro o objecto do amor quando o que se pretende é o próprio
desejar na busca para o encontrar. Isto é, vemos o outro como o objecto do
amor com vista a suprir a nossa necessidade quando o que, na realidade
pretendemos é a satisfação na busca infindável para o encontrar.
Sintetizando:
o indivíduo não ama amar o outro, ele ama a "coisa, o outro". Este é
o motivo do fim de qualquer relação. Amar o outro não é amor, pois, amor não é
posse.
Amar é a necessidade de amar e a busca de
suprir essa mesma necessidade.
Como
atrás referi, o artista, aquele que cria, cria por amor mas, nunca está satisfeito,
nunca está realizado e vive, permanentemente, na procura dessa realização, o
encontro do objecto do amor, não sendo o próprio objeto o fim último mas, sim,
a necessidade da busca para o encontrar.
Por
outras palavras, o amor é uma carência que impulsiona alguém à busca interminável
da satisfação pela supressão duma carência.
É tão
complexo, como complexo é o ser humano.
As
pessoas que agora têm cinquenta e tais,
sessenta anos, viveram uma juventude em que se partilhavam ideais, sonhos,
sentimentos, valores e se privilegiava a cultura.
Quando
existem ideais comuns, as diferenças de personalidade continuam a existir mas, existindo
essa partilha de ideais, existirá sempre
um elo de união que ajudará a suprir certas carências da alma, que, são componentes
indispensáveis numa relação estável.
Hoje,
já não se partilham ideais e, por isso, infelizmente, os relacionamentos são
difíceis e pouco estáveis; as pessoas, repito, já não partilham ideais e os
afetos perduram pelos ideais e não pelos objetos.
Voltando
ao tema que serviu de título a este artigo, quando se fala em ”fazer amor” utiliza-se
uma expressão muito errónea que significa prática do ato sexual, comum a todos
os animais.
É
instinto natural em todo o ser animal, é necessidade biológica, é impulso
natural com fim à procriação, à preservação
da espécie, não é amor e muito menos “fazer amor” porque, o amor não se faz.
O amor
é busca incessante que visa o preenchimento duma carência da alma, dum sentimento,
é a busca do mais sublime - sentimento
primeiro que nos falta e que incessantemente procuramos.
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Ensaio filosófico de -Zélia Chamusca