sábado, 27 de fevereiro de 2016

Um Conceito de Ética

Por Zélia Chamusca



                                                               

A ética fundamenta-se em princípios estruturantes numa relação de alteridade assente no reconhecimento do outro, no direito à diferença, no conceito de dignidade da pessoa humana e no bem comum. Por outras palavras, é uma partilha de alteridade, através da consciência social espontânea na procura  coletiva do bem a favor da sociedade.
O termo alteridade tem origem no termo latino “alter” que significa o outro, sendo o conceito de alteridade  a qualidade ou o estado do que  é diferente.
Este conceito, alteridade, parte do  pressuposto de que o homem enquanto ser social interage e interdepende do outro.
Ora, numa sociedade em que se perdem os princípios, atrás referidos, estruturantes numa relação de alteridade, perde-se, concomitantemente, a ética.
Uma sociedade sem ética é uma sociedade acéfala e desorganizada, desconectada de reflexão sobre o sentido da vida em sociedade.
Na nossa sociedade, dita democrática, no século XXI, comportamo-nos numa postura ética de alteridade fundamentada na dignidade da pessoa humana, na subjetividade e diversidade do outro?
Não. Nem na nossa sociedade nem em lugar algum do planeta, nas sociedades ditas desenvolvidas, o homem se comporta numa postura ética face à alteridade. E, é esta a realidade, o contrário é mera fantasia poética.
O homem, o ser humano é igual em todo o lado, independentemente da sua cultura. Em todas as sociedades existem os conceitos de bem e de mal, de alteridade, do direito à diferença do outro e a consciência da necessidade de com ele interagir e interdepender. O homem, ser humano só o é em termos de relação com o outro e nunca isolado, contrariamente seria uma abstração.
Ora, se assim é, porque é que, principalmente, nas sociedades modernas não existem princípios de reconhecimento do outro, relações de alteridade que visam o bem comum e o direito à diferença?
Hoje, dificilmente alguém se coloca no lugar do outro, numa relação baseada no diálogo e valorização das diferenças existentes.
Os relacionamentos não se estabelecem em termos de alteridade, no sentido do dever ser, na procura do bem comum em favor do outro, da coletividade; mas antes, tendem a libertar-se da obrigação moral de solidariedade, levando cada um a pensar, apenas, em si próprio.
A alteridade deu lugar ao individualismo que, tendendo a debruçar-se, exclusivamente, sobre si próprio, afastando-se de toda a solidariedade social condenou a ética ao niilismo, ao nada.
Neste niilismo impera a destruição de todos os princípios que regem as relações humanas numa sociedade justa e fraterna.
Como se vive ou sobrevive numa sociedade sem ética?
Vive-se numa alienação total de desorganização onde paira a destruição pela corrupção a que chamam crise.
Sim. É crise mas não de dinheiro porque ele existe, mal distribuído, apenas nos bolsos de alguns.
É, sim, uma crise de valores no mundo e na sociedade em que vivemos.
Crise significa rotura, desequilíbrio que tende ao equilíbrio, é mudança. É sempre nestas situações de crise que surgem as grandes transformações.
Resta, pois, a esperança de que com os fundamentos éticos duma sociedade organizada e democrática, visando um relacionamento numa prática de alteridade em favor dos mais desfavorecidos, surja uma nova forma de convivência social baseada nos verdadeiros princípios éticos de respeito pelo outro, pela diferença e pela dignidade da pessoa humana.
                                                                «»
                                                                   Zélia Chamusca
                                                                                  

                                                                                

2 comentários:

  1. Que bela lição! Infelizmente, estamos numa época em que, como bem diz, há individualismo, egoísmo, competitividade sem regras. Há mais ética entre animais selvagens na sua vida familiar e de grupo do que em muitos seres humanos. E o exemplo vem de cima. Reparemos na agressividade com que muitos portugueses se referem a outros seus concidadãos só porque são governo ou oposição. E todos têm o dever cívico, ético, de amar o País e fazer o melhor para a qualidade de vida colectiva.
    Precisamos de muitos textos como este, para alertar professores, sacerdotes e agentes da função pública de todos os níveis, para se poder levar em frente a mudança de comportamentos.

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    1. É como diz. É assim este mundo em que agora vivemos. É pena. O exemplo dos políticos que refere é a oposição do "bota abaixo" que eu não entendo. Devia sim, a oposição quando em desacordo sugerir outros métodos e soluções aceitáveis de forma a colaborar no progresso do país. Mas, infelizmente esta gente não sabe mais que destruir. Graças a Deus que estes ditos estão fora. Deixá-los falar que calar-se-ão. Muito grata pelo seu sabedor comentário.

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