sábado, 17 de janeiro de 2015

A Liberdade Perdida


                                                    
                                                     Por Zélia Chamusca

O conceito de liberdade foi, ao longo dos séculos, desde os Gregos até aos nossos dias, usado de maneiras muito diversas e em contextos diferentes.
Existem tantos conceitos de liberdade quantos os contextos em que o conceito  de liberdade se insere.
Não irei falar disso porque seria um nunca mais acabar.
Direi, contudo, que tudo o que pertence à ordem da liberdade pertence à ordem da razão. Liberdade implica responsabilidade.
Nós só somos livres enquanto seres racionais, dispostos a agir como seres racionais, isto é, agindo em consciência.
Hoje, porém, vivemos num mundo em que a liberdade se perde, sem que sequer se pare para pensar antes de agir.
Deixamo-nos conduzir como gado para o “gate” da destruição do próprio ser em que o pensamento se esvai nas teias complexas de conceitos de falsa liberdade:
Ser livre é fazer o que se quer;
Ser livre é escolher, é optar a favor dos interesses próprios;
Ser livre é andar na moda usando o mesmo tipo de vestuário;
Ser livre é fazer as mesmas leituras, ouvir as mesmas músicas ou ir para o cinema comer pipocas;
Ser livre é exibir o melhor equipamento tecnológico, Tablet, Smartphone, Smartwatch ou outro;
Ser livre é pensar da mesma forma, segundo parâmetros sociais impostos quer através da permanente publicidade dos mídia, quer através de ídolos que a sociedade cria e que muitas vezes, intencionalmente, servem para alienação das massas, contribuindo para a ausência da razão numa encefalopatia humanitária provocada pela falta de oxigenação da mente adormecida nas brumas negras e complexas da falsa liberdade que conduz à destruição;
Ser livre é deixar-se viver igual aos outros fazendo o que se quer mesmo que isso ponha em causa a dignidade do outro;
Ser livre é agir ignorando os valores morais e, fundamentalmente, os valores universais;
Ser livre é, impunemente, roubar, explorar, destruir, numa luta feroz indigna dum ser humano, numa sociedade em que cada um age a seu favor desrespeitando e injuriando o outro;
Ser livre, hoje, é lutar pela supremacia do poder quer material, quer cultural numa sociedade corrupta e desorientada.
Vivemos na liberdade perdida numa crise de valores e de pensamento.
Vivemos numa sociedade em rotura de mentalidades e de relações comportamentais indignas do ser humano na sua interação com o outro e com o mundo.
Torna-se necessária uma rotura total dos falsos valores da liberdade para que se reencontrem os verdadeiros valores perdidos numa sociedade alienada e cega, deambulando nas sombras da inconsciência levada pelo egoísmo e pela corrupção.
Vivemos em crise económica (alguns)  porque vivemos em crise de valores.
A crise implica mudança de mentalidade e de comportamento em sociedade.
A liberdade é a base da essência, isto é, nós somos livres em sermos o que quisermos ser, em nos definirmos.
Por outras palavras, nós escolhemo-nos a nós próprios e ao escolhermo-nos escolhemos o que nós próprios vamos causar.
Parafraseando o filósofo Jean-Paul Sartre, “o homem tem o peso do mundo às costas”. Com efeito, o homem é responsável pelo mundo, isto é, pelo que causa no mundo.
Liberdade implica responsabilidade agindo em consciência e respeitando o outro.
Quando escolhemos, escolhemos em consciência. Liberdade é agir em consciência distinguindo o Bem do Mal, valores universais, e caminharmos no sentido do Bem não nos deixando conduzir por “praxis” sociais de alienação das massas, repito, sem sequer pensarmos no que fazemos, no que causamos ao outro, a nós próprios e à sociedade.
Ouvimos, frequentemente, falar em liberdade de expressão e entendemos que esta liberdade é dizer tudo o que nos vem à cabeça, inclusivamente, injuriar e ofender o outro. Não, não é. A liberdade tem como limite o respeito mútuo.
A liberdade de expressão é o direito de livremente manifestarmos opiniões, ideias, pensamentos sem pôr em causa o direito à dignidade do outro, contrariamente poder-se-à incorrer na prática de crime sob a forma de  abuso de poder.
Ser livre é respeitar o outro tal como ele é, na sua cultura na sua forma de pensar e agir. Ser livre é agir em consciência respeitando-nos uns aos outros.
Ser livre é definirmo-nos sendo o que quisermos ser, agindo em consciência sendo úteis à sociedade em que estamos inseridos, não obstante seguirmos por caminhos diferentes, cada um de nós pela estrada da própria vida, mas, com o fim único – A construção de um mundo de paz, amor e fraternidade.
  
                                                                             Zélia Chamusca

Género - Ensaio

6 comentários:

  1. Tem muita razão Zélia, não só os jovens mas mesmo as pessoas mais velhas estão perdendo o conceito de liberdade. Sempre ouvi que minha liberdade acaba onde começa a do outro.Disse e muito bem liberdade é = a responsabilidade , eu apenas acrescentaria, = a respeito.
    A minha liberdade é um caminho para ajudar o próximo.
    Gostei do seu texto.
    Peregrino E Servo.

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    1. Aleluia! Alguém sente e pensa!
      Quando escrevo um artigo para pensar ignoram porque dá muito trabalho à cabeça...
      Muito grata António Jesus Batalha por seu comentário que me deixa feliz.
      Meu abraço fraterno,
      ZCH

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  2. Um belo texto filosófico , um manual de ética, com vistas muito largas de que procuro retirar alguns tópicos para meu apoio espiritual.
    Liberdade exige racionalidade, responsabilidade, ética.
    Liberdade usada como libertinagem, hoje muito em voga, não se coaduna com o ser humano, sociável, com direitos e deveres para com os seus familiares, amigos e vizinhos.
    O texto dá uma série de ideias das «falsas liberdades de hoje que nada têm de racional e colocam o ser humano abaixo de muitos animais ditos «irracionais», segundo a definição arrogante de «racionais» não merecedores do adjectivo.
    Há, realmente, que recuperar a terminologia, reavivar valores essenciais para a vida em sociedade. E, ao defendermos a liberdade, não podemos esquecer o respeito pelos outros, pelo seu direito à sua liberdade. Não podemos impor aos outros a defesa dos nossos interesses e ambição de poder, devendo ter sempre presente uma intenção pura de bom relacionamento em paz, em perfeito entendimento de somar energias para a Paz universal.

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    1. Ilustre Amigo, A.João Soares,
      Muito grata pelo seu sapiente comentário que muito dignifica este espaço.
      Meu abraço fraterno,
      ZCH

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  3. Excelente, querida Zélia.
    Mostrou que a Liberdade, não é somente o sinônimo de sair, por onde quer que seja, sem nenhum destino.
    Parabéns.

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    1. Muito grata Minha Querida Mónica Pamplona,
      Desejo um dia muito feliz!
      ZCH

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